sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Quinta Chamada

Finalmente, formei-me.
Formei-me em Letras pela Universidade Federal de São Paulo.
Fiz cinco anos e meio de faculdade para conseguir o diploma de licenciada para dar aula de Português e/ou Francês. Sinto-me aliviada.
Demorei pra escrever alguma coisa sobre a minha formatura pois acredito que não fiz mais do que a minha obrigação. Vou explicar. Quando decidi prestar vestibular, era para entrar na faculdade e quando entrei na faculdade era pra sair formada, então cá estou.
Em 2009 eu comecei a trabalhar num lugar e fazia cursinho lá. Era o Anglo, unidade da Rua Sergipe na Consolação mas na propaganda aparecia Higienópolis para chamar a atenção dos clientes.
Entrei sem saber ao certo o que eu queria. Queria passar na faculdade mas a faculdade tanto faz desde que eu não tenha que pedir para o meu pai pagar. O curso estava determinado: Letras!
Num lugar onde todos iriam prestar medicina, arquitetura, direito, biologia e engenharia eu era a "patinha feia". "Letras? Mas pq Letras?" diziam eles. "Letras! Porque eu gosto de ler, de escrever e adoro gramática." dizia eu.
Não estava muito preocupada com o que aquelas pessoas pensariam de mim, eu nunca me importei muito com o que pensavam. Trabalhava num lugar onde as pessoas tinham muito dinheiro e eu conversava com todas elas sem medir status... como uma criança mesmo. Cheguei a conversar com pessoas que perguntavam onde eu morava e eu dizia que era na zona leste. "Zona leste? Ahhh sim! Lá pros lados do Tatuapé, né?" E eu dizia "Mais pra lá, bem mais pra lá."
No Anglo, os monitores tinham uma sala para "cuidar". Eu era uma monitora e a minha sala era dos vestibulandos da FGV - Fundação Getúlio Vargas, uma instituição que tem a mensalidade tão cara que eu achava que ninguém teria dinheiro para pagar aquilo tudo.
Ninguém da sala que eu cuidava falava comigo. Ninguém. Todos os monitores tinham seus amigos e as salas eram divididas em: Humanas, Exatas e Biológicas.
A minha sala era FGV então era meio diferentona mesmo. Entrei em maio e todo mundo já tinha amigos, menos eu. Claro que os monitores me acolheram de braços abertos. Marina, Camila, Rene, Gabrielle, Plínio, Marcus, Everton e Ana. Os dois últimos permanecem firmes e fortes na minha vida até hoje e eu costumo dizer que são presentes que ganhei desse lugar.
A Ana foi a primeira a me receber bem. Quando eu fui fazer entrevista ela passou com aquele coletinho laranja sorrindo pra mim. Será que ela pensou que eu fosse uma aluna? Será que ela sabia que eu seria sua colega de trabalho? Ou sei lá... sorriu porque é simpática mesmo. Não... sinceramente eu acho que ela sorriu porque foi com a minha cara. Eu fui com a dela e sorri de volta.
Eu e a Ana ficávamos no terceiro andar. Era muito bom! A gente ficava conversando da vida o dia todo. Estudávamos também, claro. Mas nós tínhamos muito o que conversar, e cantar e dançar... teve professor que já me pegou dançando no corredor e esse dia foi muito engraçado.
Um dia, estava conversando com o Fran que era um funcionário do Anglo que já estava na faculdade. Ele me disse: Por que você não presta Unifesp? É em Guarulhos e deve ser até perto de onde você mora já que é da leste.
Pesquisei sobre e... sim! Era relativamente perto. Uma Universidade Federal, perto de casa e que considerava o Enem como meio de ingresso. Era pelo sistema misto (hoje não é mais), então eu faria uma prova objetiva e uma dissertativa.
Minha prova objetiva foi um desastre. "Nossa, que prova horrível! O Enem é muito cansativo e extenso... jamais vou conseguir", eu pensava. Mas fui... os dois dias de prova objetiva e na outra semana fui para a prova dissertativa.
Na dissertativa eu até que fui bem. As perguntas eram específicas de Português, História e Geografia.
Lembro direitinho do dia que eu vi o meu nome na lista. Era a quinta chamada e eu já estava quase sem esperanças de passar. Neste dia, eu passei mal e não fui trabalhar. Minha mãe me levou no hospital de manhã e eu fiquei lá tomando soro até melhorar. Gastrite atacada. Nem sem se esse termo é válido, mas dane-se a medicina. Eu estava passando um perrengue lascado tendo que acordar às 4:30 da manhã todos os dias para estar na Consolação às 6:30 e só saía de lá às 20 horas pois ficava trabalhando na parte da manhã, almoçava, ia pra aula a tarde e ficava na sala de estudos até melhorar a situação do transporte público pra eu conseguir respirar no ônibus, chegar até o metrô, pegar mais um ônibus pra conseguir chegar em casa. Não era de se espantar porque o meu estômago estava doendo tanto.
Às vezes eu chegava bem mais tarde em casa pois saía do Anglo e ia assistir a apresentação da banda "Os Babilaques" que era formada por alguns professores do Anglo. Um deles era o meu ídolo! Professor de Português Paulo César de Carvalho. Eu nunca tive aula com ele. Eu gostava muito dele pela pessoa incrível que ele era e ficava com as orelhas grudadas na porta do lado de fora tentando ouvir a aula. Um dia, ele usou uma passagem do meu poema preferido na aula. "A flor e a náusea" do Drummond. Ouvir ele dizendo "É feia, mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio" foi, pra mim, uma realização. Não só isso, mas como eu estava passando por um momento muito confuso em minha vida, comecei a dizer que o Anglo era a minha flor pois era feia mas furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio muitas vezes em minha vida.
No dia do meu aniversário, o meu chefe permitiu que eu visse uma aula dele. Tirei o meu colete laranja e fui sentar como uma aluna. Ele entrou na sala, deu aula sobre crase (que aula!) e recebeu vários bilhetinhos durante a aula. Não leu nenhum em voz alta. No fim da aula ele agradeceu a minha presença ali e disse que eu era o sol que iluminava as suas manhãs. Cantaram parabéns pra mim... foi demais! Um dos dias mais legais que eu tive no Anglo!
Voltando ao dia que vi meu nome na lista, estava eu e a minha irmã Vanessa em casa. Minha avó morava no quintal então ela também estava em casa. Meus pais tinham saído para fazer compras no mercado. Entrei no site pensando "Vamos ver... eu não passei mas vai que..."
A lista estava em ordem alfabética e o meu nome era o segundo da lista seguido de "Albert Einstein fulano de tal". Primeiro eu conferi pra ver se era isso mesmo. Se não era uma pegadinha com aquele nome estranho antes do meu... mas não era. Era o meu nome. Era o meu!
Chamei a Vanessa aos berros num desespero imenso! Ela subiu as escadas correndo perguntando "O que foi?" espantada. E eu, desabando, disse "Eu passei na Unifesp."
Recebi o meu primeiro abraço e o meu primeiro parabéns.
Minha avó, da casa dela, conseguiu ouvir e gritou: "Aline? O que foi?" E eu, com vergonha, disse: "Nada vó. Eu passei no vestibular. Estou feliz." E ela entrou de novo em casa aliviada por não ter sido nada grave, era só um raio de vestibular que deixou ela feliz. "Ta feliz então ta bom" ela deve ter pensado.
Quando acalmei um pouco, pensei "Quinta chamada? Hum... Será que eu me matriculo? Quinta chamada? Ruim, hein? Se é pra passar, tinha que ser na primeira, poxa..."
Esses questionamentos duraram alguns minutos até que ouvi o carro dos meus pais. Chegaram!
Fui lá no quintal e meu pai estava fechando o portão da garagem.
- Pai, sabe aquela prova que você pagou a inscrição pra mim?
- Sei. Aquela de 75 reais, fia?
- Sim. Eu passei.
- Passou? Era o vestibular?
- Era. Eu prestei pra Letras e passei.
- Você passou? Você vai fazer faculdade? Negáááá, a Nininha passou na faculdade! Você vai sair daquele inferno de Anglo? Não vai mais acordar as 4 horas da manhã e chegar meia noite? Ai meu deus do céu!
E me abraçou, e me beijou e me deixou me deixou orgulhosa. A ficha caiu.
No dia seguinte, fui trabalhar.
"Aline! O que você está fazendo aqui, menina? Você passou!"
E o meu lado virginiana ainda não sabia se iria mesmo me matricular já que eu não passei na primeira chamada.
Fui convencida por todo mundo que ficou feliz por mim e também pela felicidade do meu pai.
Fiz a matrícula em 2010 e eu não teria como detalhar os meus cinco anos e meio de graduação porque daria um livro.
Porém, há algumas coisas que eu não consigo não citar como os estágios que fiz numa escola pública no Itaim Paulista dando aula de reforço, no Sesc Belenzinho como arte educadora e encontrei a minha vocação, o estágio que fiz no Instituto Florestal dando aula de inglês para crianças e ter certeza do que eu não nasci pra fazer, das minhas mudanças de casa para repúblicas em Guarulhos, depois na Mooca, das vezes que eu fazia um pratão de pedreiro no bandejão da faculdade para colocar metade na marmita pra levar no almoço no dia seguinte no trabalho, das vezes que eu pedia pizza com os meus últimos centavos porque chegava em casa cansada demais para cozinhar, das vezes que eu esperava o tempo que fosse pra pegar o ônibus sentada e conseguir dar um cochilo antes da aula pra amenizar a fome e me deixar menos cansada, das minhas dores no estômago no ônibus, na república de madrugada sozinha com medo de acordar alguém, de quando eu ficava presa na Dutra ou na Marginal e não conseguia chegar a tempo na aula pois estudar em outra cidade é uma coisa bem complicada, das vezes que eu passei a noite acordada fazendo trabalhos, escrevendo resenhas ou fichamentos ou qualquer outra atividade pra entregar no dia seguinte, das vezes que deixei de sair com meus amigos que têm certa mágoa de mim até hoje por eu não estar presente em vários eventos importantes, das várias vezes que a Unifesp entrou em greve, de quando o meu pai estava no hospital e eu alternava a jornada com as minhas irmãs e de quando o meu orientador ficou conversando comigo durante 3 horas tentando me convencer de entregar a primeira parte do meu TCC que ele considerou mediano, do quanto eu chorei na frente dele e mal conseguia falar de tanto que soluçava, das coisas que perdi, das coisas que aprendi... é tanta coisa que nem a minha memória foi capaz de conservar tantas coisas pra eu poder detalhar num livro.
O meu amor sabe de boa parte de todos esses meus perrengues pois foi ele quem estava lá pra me levar no hospital e ficar lá comigo o tempo todo e me ajudar na república, e me dizer como chegar e sair de um lugar em Guarulhos que eu não fazia ideia de como fui parar ali, e me dar uma impressora pra eu deixar de ficar horas na fila da faculdade pra imprimir alguma coisa ou pagar uma fortuna em xérox... tudo! Ele estava ali me ajudando em tudo, tudo mesmo.
Todo ano eu faço uma lista de desejos. Um deles era que eu me formasse.
Eu descobri que estava formada um dia depois do dia dos pais. Foi um presente tardio para o meu pai, mas não daria pra eu entregá-lo antes. Meu pai faleceu em Maio de 2014.
Sempre que eu recebia uma boa notícia, a primeira pessoa que eu corria logo pra contar era o meu pai. Ele tinha o abraço mais gostoso desse mundo e eu me sentia uma criança abraçando ele, mesmo depois de adulta.
Imagino que se ele estivesse aqui, ficaria tão feliz que... nem sei. Talvez me abraçasse forte e pedisse pra eu gritar "Irrul!" como ele pedia sempre.
Não quis fazer colação de grau e nem festona de formatura porque ser virginiana é um inferno e eu entrei na Unifesp pra sair formada mesmo então não fiz nada além do que já estava previsto.
Chamei meus amigos queridos para virem aqui em casa, coloquei algumas músicas alegres, estavam os meus bolinhas, minha mãe, todos alegres, felizes...
Durou menos tempo do que eu gostaria mas acredito que durou o suficiente pra eu poder rever todos aqueles que tiveram orgulho de mim, mesmo passando apenas na quinta chamada.
Foi uma jornada e tanto! Conseguir realizar um sonho como esse é algo inexplicável.
Dedico a minha formatura ao meu pai e faço um grande esforço pra me enganar e acreditar que ele recebeu esse meu presente com lágimas de felicidade nos olhos.

(Festa de Formatura com o tema Halloween dia 30/11/2016)