Apesar de começar falando do meu pai, não é bem dele que eu gostaria de falar hoje. Hoje eu preciso falar da Caixa Cultural.
Não sei se todo mundo sabe, mas o banco da Caixa possui um espaço cultural na Praça da Sé. É um prédio imponente, da fachada de mármore preto de 10 andares. O ano? 1939. O espaço, hoje, abriga as atividades do banco e a Caixa Cultural contendo 4 galerias de exposições, sala de oficinas, auditório, um grande salão onde acontecem vários eventos e andares da administração.
Não é do meu interesse ficar fazendo propaganda desse espaço e se alguém pensou isso, tenho pena. Falo porque se trata de um lugar incrível e que as pessoas precisam conhecer. Não é por mim, não é pela caixa. É pela arte, cultura e acalento de coração. Um espaço onde vivi belos três anos de dedicação, trabalho duro, algumas decepções e grandes amigos.
Durante três anos da minha vida, conversei e olhei nos olhos de muitas pessoas com sede de coisa nova, de olhares e ouvidos atentos aos bastidores de uma década de 30 que nada posso falar por experiência própria, mas muito falo pelo meu mergulho na pesquisa de registros dos chamados "anos de ouro" do edifício Sé.
Independente de ser uma instituição completamente capitalista e opressora, eu pude tirar proveito do que de mais belo existe nessa vida, que é a arte. Sendo bem sincera (e eu ate diria mal educada), estou pouco me lixando se acham que estou sendo puxa saco. Tive o prazer em frequentar durante três anos da minha vida, um lugar em que se vê arte por todos os lados, que se encontra com pessoas incríveis pelos corredores, que recebe pessoas interessadas num passado que às vezes viveu, às vezes não.
Eu diria que a minha rotina na caixa era quase frenética: dois ou três grupos por dia. Recebi crianças de 3 anos que adoravam falar dos pais, professores que adoravam descontar a má educação dos seus alunos nos pobres educadores conversando durante toda a visita, educadores mais preocupados em caçar nossos deslizes demonstrando com intensidade os seus, adolescentes com cara de "que saco" e famílias querendo comer e ir embora. Claro, seria hipocrisia dizer que foram anos perfeitos sem visitas enlouquecedoras. No entanto, os olhos brilhando com interesse numa época passada, os suspiros e questões em volta de um piso de taco feito de madeira maciça, as caretas quando se olha um objeto de mais de 10 quilos feito apenas para fazer contas e o alívio de ter feito vários novos amigos em uma hora e meia, definitivamente, pagam toda e qualquer tipo de decepção que pude ter naquele lugar.
O público da caixa é um público que quer saber o que ocorria naquele lugar. O que era? Quem ficava em cada sala e o que eles faziam? Cadê as mulheres representadas nesse lugar? Era uma época de muito ou poucos amores? E nós aceitamos a proposta dos visitantes conforme dizem suas questões e expressões.
Jamais esquecerei da primeira exposição que eu mediei na caixa. Esculturas em cerâmica de uma artista chamada Kimi Nii. As obras pareciam planetas e vulcões e, por se tratar de arte contemporânea, foi um desafio apresentar aquela exposição para crianças de 3 anos.
Ousei. Li pela enésima vez a obra "O pequeno príncipe" porque aquilo tinha me feito lembrar que cada personagem morava em um planeta. Hum... interessante. Dei nome às obras, reinventando-as. As esculturas em cerâmica tornaram-se planetas e o pequeno príncipe foi viajando e conhecendo seus donos. Kimi Nii que me desculpe, mas sou educadora. Arte educadora. A minha licença para mergulhar e navegar na arte é a mesma de qualquer uma daquelas crianças ou de qualquer visitante que pudesse entrar e viajar junto com a gente, ou sozinho. Assim como a própria Nii teve para criar, somos livres para recriar e trazer um sentido pra nós.
Tive, também, a maravilhosa chance de conhecer o trabalho de um dos artistas brasileiros que eu mais admiro. Abelardo da Hora. Pernambucano, o escultor trata da beleza feminina, da vida simples e bela e da miséria de uma forma que toca o coração.
Pesquisando sobre sua vida, descobri que existe um Instituto com o seu nome. Quando fui para Recife pela segunda vez em Janeiro de 2016, fui atrás do local e deparei-me com a casa do artista. Fui recebida pela filha dele e conheci sua casa, seu ateliê e até seu quarto. Uma experiência tão mágica que jamais vou esquecer.
(Esta obra é a "Nega Fulô" que está até hoje no MASP)
Também tive a honra de encontrar com os brilhantes da poesia Alice Ruiz e Arnaldo Antunes nos corredores da Caixa Cultural, vi de perto a simpatia de Alceu Valença e Nando Cordel, brinquei com os brinquedos artesanais de Sálua Chequer, conheci trabalhos de educadoras brilhantes como Gisa Picosque, viajar nos Tapetes Contadores de Histórias e nas aventuras de Stim Shilin, conheci mais sobre o candomblé de Carybé, li haicais de Paulo Leminski e ri tentando pensar em coisas complexas no que ele disse com a maior simplicidade e que estava acontecendo ali, naquele momento, entendi sobre gravuras, esculturas, pinturas e vários outras técnicas artísticas... foi tanta coisa maravilhosa, tanta coisa incrível que me torno incapaz de descrever cada uma dessas experiências incríveis.
Como educadora, participei de ações educativas como a visita teatralizada, pedindo uma licença para a galera das artes cênicas e, com todo o cuidado do mundo, explicando que nos vestir de um personagem e fazer a visita como se fosse ele é apenas uma brincadeira e uma forma de deixar a visita mais divertida, de ajudar a criar a visita sensibilizadora, dando a chance das pessoas sentirem os cheiros, ouvindo sons e experimentando sensações numa visita em que os sentidos são aflorados, criar joguinhos e dividindo equipes para que o desafio da competição apimente a experiência das pessoas no espaço, fazendo caixinhas de memórias, criando paredões de homens enfurecidos ao falar do feminismo, tirando o colete do "Gente Arteira" e dizer que ali estava a Aline Dias e que um uniforme pode identificar mas não revelar quem sou. Infinitudes.
Como eu gostaria que cada pessoa que está lendo esse texto entrasse um pouquinho em minha memória e tivesse a chance de ver um pouquinho desse filme que passa na minha cabeça nesse exato momento.
Sou grata.
A instituição ainda tem muito o que aprender com relação a ter um educativo. Apesar disso, sempre confiei muito no meu trabalho e sei que, pelo menos nesse período que eu estive lá, fiz e fizemos de tudo para que a luz daquele espaço onde os educadores são chamados de monitores não se apagasse. Independente da instituição, fiz o meu trabalho da forma mais sincera que pude e colhi frutos incríveis. O valor que isso tem pra mim é muito, muito grande.
Eu cresci demais e sei valorizar as coisas belas que a vida coloca ali na nossa porta.
Agora, estou no museu da cidade. Vários espaços riquíssimos na nossa cidade que representam assuntos e temas que diz um pouco sobre cada um de nós.
A minha pesquisa agora é sobre o circo. Um assunto que ainda estou estudando, mas que já me agrada muito.
Bom... vou ficando por aqui.
Qualquer dia desses, faça-me uma visita em algum espaço cultural.
Por aí, pela cidade.
Sei que posso não ficar num lugar para sempre, mas acredito que, de profissão, estou certa de onde é o meu lugar: sou educadora.




