segunda-feira, 10 de julho de 2017

O pedido

[postagem publicada no face em 18 de Julho de 2016.]

Ontem eu fiz um pedido de casamento. Estava nervosa, cansada e ansiosa para o grande dia. Nervosa pois não é todo dia que se pede alguém em casamento, cansada pois a surpresa que preparei foi trabalhosa e muito bem planejada e ansiosa pois a ansiedade está sempre presente nos momentos mais importantes da nossa vida.
Há alguns meses, pensei em preparar um jogo:
Ele gosta de vídeo game então achei que seria uma boa ideia bolar um joguinho. Mas como? Ele poderia ser uma espécie de Super Mario Bros e… e aí? Preciso de uma missão pra ele! Algo que seja diferente de salvar a princesa porque isso seria muito previsível. Poderia ter algo a ver com a gente. Objetos que lembrem a nossa história? Isso! Mas quais? Somos brotos, então o broto não pode faltar. Também preciso pensar em algum objeto que se fez importante para desenvolvermos nossas primeiras conversas. Ele poderia estar numa casa onde cada cômodo representasse um lugar e, em cada um, ele encontrasse um objeto. Nossa! Seria incrível! Mas só um é pouco, poderia ser uns 3 em cada cômodo…”
E aí começaram os projetos do pedido em meados de Março de 2016.
Nunca achei que fosse tão difícil encontrar alguém que faz games, então a ideia inicial foi descartada: um game.
A ideia do joguinho era boa, então não descartei e continuei com ela na cabeça até que tive a ideia de começar a reformar a nossa casa.
A casa, nós temos. É uma casa pequena e velhinha que foi construída pelo meu pai na década de 80. Pensamos em reformá-la juntos, mas achei que seria uma ideia incrível tentar reformar sem que ele soubesse e fazer uma surpresa à lá “The Notebook”.*
Cozinha pra montar, paredes, portas e janelas pra pintar, gabinete pra instalar… será que eu daria conta de tudo? É claro que eu precisava da ajuda de alguém mas com quem eu poderia contar que não fosse ele? Ele não poderia saber de nada pois, se não, ele gostaria de fazer tudo e eu sei muito bem disso.
A reforma da casa ainda estava muito incerta na minha cabeça, mas o jogo eu queria fazer de qualquer maneira. Pensei em fazer na casa dele, na minha casa… mas a nossa casa seria o lugar ideal e eu nunca conseguiria fazer uma surpresa como essa na vida, então determinei isso: farei a reforma lá sem ele saber.
O Eduardo, namorado da minha mãe, me ajudou com as portas, o gabinete e pia da cozinha, o armário da cozinha e meu móvel feito de caixotes. Ah… sim! Fiz um móvel com alguns caixotes que o meu amor trouxe para mim da escola onde ele trabalha.
Minha mãe me ajudou com a desocupação da casa, colagem de um tecido na parede do quarto, com a pintura das portas, a restauração de uma cama e com as panelas que eu estava precisando.
O resto, eu fiz. Pintei paredes, pintei tetos (como é difícil e cansativo!), coloquei tecidos na sala, trouxe os móveis pra casa, troquei lâmpadas, decorei com quadros e uma paleta de cores neutras e um bordô vibrante e todos os detalhes.
Vanessa, minha mãe e Eduardo também me ajudaram nos ajustes finais de uma parte importante do dia do pedido de casamento. Uma parte que é a casa reformada. Ainda restam três partes importante desse pedido: o jogo, o diário de reforma em vídeo e o nosso livro de aventuras.
Determinei que eu iria complementar o pedido dessa forma. Tive a ideia de fazer uma espécie de vlog para registrar o passo a passo da reforma da nossa casa e iria fazer o pedido, propriamente dito, no nosso livro de aventuras.
Para o jogo, precisei de fitas nas cores de cada cômodo e representante de cada lugar especial pra nós. Na sala ficaria a Outs, lugar onde nos conhecemos e a cor seria preta para representar o rock e a banda TV República que eu fui assistir sem conhecer o guitarrista: ele. Na cozinha ficaria as redes sociais representadas na cor azul pois no facebook, no twitter e no msn é a cor que prevalece. No banheiro, a Avenida Paulista representada na cor verde para simbolizar as estações do metrô e, por último, o lugar que chamamos de “nosso jardim”: Parque do Ibirapuera. Ficou no quarto, representado pela cor vermelha que é a cor do nascimento de uma chama “que arde sem se ver”.
Os objetos foram decididos cuidadosamente: Smirnoff Ice, cachecol, ingresso da TVR, broto, primeira conversa no facebook, brigadeiros, livro, cup cake, sabonetes e o nosso Livro de aventuras. Em cada cômodo da casa, ele achou três e no quarto só havia o nosso Livro de Aventuras.
Cada objeto estava envolvido numa fita da sua cor representativa e, para cada um, uma carta impressa dentro de um envelope também na mesma cor.
Para o Livro de Aventuras, imprimi algumas fotos nossas, usei papeis e canetas coloridas para dizer tudo que eu estava sentindo. No final, a pergunta: você gosta de namorar comigo? Do mesmo jeito que ele me perguntou quando me pediu em namoro: “Você gosta de ficar comigo?”. Ele tinha a opção de escolher o “Não” que era uma cartinha dentro de um envelope com um bonequinho triste e o “Sim” com a pergunta: “Então… Casa comigo?”.
Quando ele entrou na casa, ficou muito surpreso e disse “O que é isso aqui? Meu deus! Você fez tudo isso?” Entrou no jogo rapidamente e foi encontrando os objetos lendo cada uma das cartas cuidadosamente. A cada objeto encontrado e a cada carta lida eu ganhava um beijo, um abraço, palavras sinceras, sorrisos e um cubinho de gelo a mais na minha barriga esperando o momento do pedido.
Foi colocando os objetos na mesa na medida em que os encontrava e chegava a desacreditar que estava ali naquele momento.
Ele abriu o envelope “Sim” e, além do grande pedido, nossas alianças presas numa fita que saíram do envelope ao passo que ele puxava o papel. Seu segundo “Sim” foi imediato e, para o meu alívio, seguido de um beijo e um abraço. Felicidade existe e estava conosco naquele momento.
Para esse jogo, não havia poesia em forma de música melhor do que “A Casa é Sua” do incrível Arnaldo Antunes. Não escolhi a música, ela me escolheu. Enquanto eu ficava trabalhando em galerias de arte no centro de São Paulo, ficava cantarolando ela na cabeça o tempo todo. Até o dia que eu tive certeza de colocá-la: Arnaldo Antunes fez uma visita em uma das galerias do espaço que trabalho. Lá havia algumas obras dele e ele foi prestigiar os curadores que também são seus grandes amigos. 
Quis relatar essa experiência pois foi um dia imensamente importante pra mim e agradeço aqui todos que me ajudaram com algo. Em primeiro lugar, o Eduardo que não mediu esforços para vir me ajudar no que eu precisava. Minha mãe por dar o primeiro passo para que as coisas fluíssem aqui quando eu ainda não conseguia reconhecer a casa como meu espaço, Fabiana por me ajudar com os incríveis brigadeiros com toque de vinho do Porto, Vanessinha que mesmo com o braço doendo perguntou no que eu queria ajuda e aos que gostariam muito de ter vindo ajudar mas por algum motivo não conseguiram.
Sejam criativos nos pedidos de vocês. Tenham autoconfiança e acreditem que tudo vai dar certo e, se não der, é porque o certo não era aquilo.



*Romance de Nicholas Sparks que conheci primeiro através do filme, que eu amei, e em seguida li o livro que odiei. No filme, a cena mais linda é quando a Allie acorda envolvida num cobertor bordô e olha pro espaço do Noah na cama e encontra uma flor com um bilhete dizendo algo do tipo “Saí mas não demoro. Preparei uma surpresa. Siga as setas.” e ela vai correndo saber o que lhe espera. Ao chegar num lugar, ela fica maravilhada em saber que ele construiu o ateliê que ela pediu quando eles namoravam.


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