segunda-feira, 6 de maio de 2019

Dia especial

Fôlego. Parece ser o que me falta para tentar descrever o turbilhão de sentimentos  que eu venho sentido desde que a Flora nasceu.
Sou mamãe há 25 dias. Daqui a pouco terá um mês, dois, quatro, um ano e não sei se um dia eu serei capaz de dizer o que tudo isso têm acrescentado na minha vida.
É muito estranho pensar na pessoa que eu era antes de tudo, pois a transformação foi tão grande e intensa que me torno quase incapaz de comparar as duas versões como sendo de uma mesma pessoa.
Relatei aqui como foi ter descoberto a minha gravidez, como foi saber que era menina e agora eu gostaria de relatar a experiência do meu parto e como estão sendo esses dias com a Flora na minha vida.
Relato, pois não quero que se perca no tempo, eu não quero perder nenhuma lembrança que tenha sido importante.
Algumas se perderão, infelizmente. Mas deixo o registro das coisas findas, muito mais que lindas para que ficarão (parafraseando Drummond).
Pois bem, dia 11/04/2019: era uma quinta feira e eu tinha completado 39 semanas de gestação no dia anterior. Eu estava aflita, pois na minha última consulta com o obstetra, ele disse que ia viajar na semana de provável nascimento da Flora e que, se ela não nascesse até dia 17/04 que era a data prevista, poderíamos marcar uma cesária para a semana seguinte, dia 23/04.
Achei a data muito distante e eu estava com medo dela realmente não querer nascer até lá.
Eu tinha preferência pelo parto normal. Queria que a Flora viesse no tempo dela e que a minha recuperação pós parto fosse mais rápida.
Caso não fosse possível ter parto normal por alguma razão (e, às vezes elas são legítimas), eu estava tranquila em ser cesárea também.
Tive uma gestação muito tranquila, principalmente no primeiro e segundo trimestre. O terceiro foi um pouco mais chatinho porque tive uma infecção urinária e tomei um antibiótico que atacou meu estômago e me derrubou por alguns longos dias.
Estava almoçando um pouco tarde com a minha mãe, por volta das 15:30 quando comentei com ela que eu estava sentindo uma leve cólica, como se eu estivesse prestes a menstruar.
Minha mãe, que já não lembrava muito bem como eram os primeiros sinais de que o bebê realmente está chegando, pediu pra eu avisar a minha irmã mais velha, mãe de três crianças.
Minha irmã mora na casa dos fundos e veio dizer que, normalmente, é o primeiro sinal de que o bebê está vindo mesmo.
Fiquei um pouco ansiosa e comecei a revisar as malinhas da maternidade, minha e da Flora.
As dores foram ficando cada vez mais intensas e o Felipe estava prestes a chegar em casa, pois ele estava saindo do trabalho.
Quando ele chegou em casa, eu estava sentindo as contrações de 3 em 3 minutos e ele disse: vamos pro hospital agora.
Achei que pudéssemos esperar mais um pouco porque eu não queria ficar muito tempo lá no hospital esperando ter dilatação necessária. Se era pra sentir dor, poderia sentir em casa mesmo.
Felipe disse: Mas os intervalos estão muito curtos, vamos logo!
Saímos. Felipe, minha mãe e eu fomos para o hospital Neurocenter e, no caminho, trânsito.
Quando vi a Rodovia Presidente Dutra travada, comecei a chorar.
As dores vinham de um jeito que eu tinha cada vez mais a certeza de que eu nunca tinha sentido uma dor tão forte em toda a minha vida. Era a dor das contrações e era muito pior do que eu imaginava.
Chegamos no hospital às 18:30 e eu já estava me contorcendo toda. O recepcionista pediu para me levarem para a triagem numa cadeira de rodas.
Fiquei com o Felipe numa sala em observação enquanto a minha mãe fazia a ficha da minha internação.
Quando a dor vinha, eu me contorcia toda e falava 'aiaiaiaiaiai" pro Felipe ir marcando o tempo dos intervalos. Era sempre de 3 em 3 minutos e quando a dor passava, eu voltava à plenitude.
Chegou um médico na sala e foi medir a dilatação: Tem um dedo só, vamos aguardar mais um pouco. Estamos na troca de plantão e seu parto provavelmente será feito com a doutora que entra já já.
Gostei. Um dos meus maiores desejos na gestação era que meu parto fosse feito por uma mulher.
Continuei mais alguns minutos na sala de observação com o Felipe e comecei a passar mal. Fui ao banheiro, vomitei e vi que estava saindo um líquido tranparente com sangue de mim. Imaginei que aquilo pudesse ser a bolsa rompida.
Ali, os fluidos do meu corpo já se manifestavam de forma a confirmar cada vez mais que eu me tornaria mãe logo mais.
Alguns minutos depois, falei pro médico e ele disse que a bolsa ainda não tinha estourado, que o líquido que tinha saído de mim era por causa da dilatação mesmo.
Me deram uma camisola, vesti e fui levada para outra sala. Lá, a enfermeira não deixou o Felipe entrar comigo, mas disse que ele entraria na sala de parto quando chegasse a hora.
Fiquei caminhando num corredor, enquanto esperava dilatar mais um pouco. Eu ia e voltava naquele corredor, sozinha, sentindo dor e a enfermeira me observava de longe. Eu queria deitar, mas queria que a Flora viesse logo, então eu caminhava cada vez mais rápido para agilizar o processo.
Teve um momento que eu dei uma parada e tive certeza: a bolsa estourou. Mais fluidos sujando o chão, enfermeiras me orientando o caminho da sala de parto, deitei na maca e lá estava a doutora.
Felipe entrou na sala e a doutora se apresentou pra gente: Dra Karen.
Nessa hora, tinha bastante gente na sala: Felipe, Dra Karen, cerca de 3 enfermeiras e eu.
Elas disseram: Aline, quando vier a dor, você faz bastante força, como se fosse fazer cocô.
A dor vinha e eu achei que era muita informação fazer força num lugar específico quando você não sabe nem dizer qual é o seu nome. Sério, dói muito.
Eu achei que não ia conseguir, pedi anestesia, falava que estava doendo muito e as enfermeiras e o Felipe me acalmavam: está quase lá, você está indo bem.
Nesse meu desespero, a doutora perguntou se eu autorizava ela fazer o corte, eu autorizei sem o menor peso na consciência, sem achar invasivo, sem romantizar que meu corpo é sábio o suficiente para empurrar a bebê sem precisar de intervenções. Há muitas coisas em toda a questão da maternidade que são romantizadas e essa é uma delas.
Veio a dor, fiz bastante força, senti a Flora nascer e depois a dor foi embora como num passe de mágica. As enfermeiras comemoraram, eu respirei fundo, Felipe estava ali comigo e um alívio transcendental tomava conta de mim naquele momento.
Às 20:49 ela vinha ao mundo! Pesando 2,830kg, medindo 49 cm, de parto normal, com exatamente 2 horas e 19 minutos depois de eu ter chegado no hospital.
Flora foi enrolada e trazida aos meus braços. Era ela! A minha menininha, aquela que dançava dentro de mim, aquela semente que virou brotinho e floresceu, era ela, a Flora. Ela não chorava, mas estava respirando e estava tranquila, o que me deixou tranquila também.
Acho que ela só queria continuar dormindo e foi o que ela fez quando deitou no meu abraço.
Me deixaram dar um beijinho nela e a levaram para o banho enquanto a doutora fechava o corte.





Nesse momento, eu agradeci a doutora e disse que eu estava muito feliz em saber que o meu parto tinha sido feito por uma mulher, pois era o que eu mais queria.
Ela disse: Que isso! Nós que agradecemos por você confiar na gente.
Perguntei quantos pontos eu levei, ela disse: olha, eu não costumo contar. O importante é que você pare de sangrar, tá bom?
As enfermeiras disseram que naquele hospital, a maioria dos partos feitos são cesárea. Também disseram que foi um belo parto.
Fui para o quarto e o Felipe estava lá e ia revezar para que a minha mãe pudesse me ver.
Nos vimos, choramos, eu disse que estava tudo bem e ela estava feliz.
Ela deu sorte de ver a Flora no corredor do berçário.
Logo em seguida, veio a minha sogra Nadja, que não deu a mesma sorte e não conseguiu ver a tão sonhada neta naquele dia.
Livya, minha cunhada coruja também foi lá me ver e ela tinha feito algumas fotos e um vídeo da Flora no berçário.



Levantei, tomei banho e a Flora veio pra mim novamente. Com a orientação da enfermeira, coloquei ela no peito para mamar. Ela mamou durante meia hora, largou o peito e dormiu. 
Eu ainda tinha dúvidas se ela realmente mamou alguma coisa, pois não dava pra ver nada. 
"Ela com certeza mamou. Os bebês não ficam meia hora só chupetando o peito sem reclamar." disse a enfermeira.
Fiquei muito tranquila e até consegui dormir.
A Flora então... Nem se fala! Ela mamou meia noite e dormiu até umas 6 e pouco da manhã. Minha menininha já me deu descanso assim que nasceu, como não amar?


As enfermeiras eram muito simpáticas e sempre muito dispostas. Entre elas, tinha a Elisângela que se apresentou como Eli e era um amor.
Felipe perguntou pra ela já quanto tempo ela estava naquela função, que parecia fazer com tanto amor. Ela disse: se eu disser que estou aqui há um mês, você acredita?
Impressionante como a Flora parava de chorar no colo dela, era quase automático.
No dia seguinte na maternidade, recebi as visitas da minha mãe, minhas irmãs, meus sogros e cunhados.
Flora pareceu gostar bastante de dormir e dormia por horas bem tranquilamente acordando só pra mamar.
Tive empedramento dos meus seios na maternidade e recebi orientação das enfermeiras para desfazer as pedras, mas como dói!
Duas vezes a Flora precisou tomar a fórmula lá, o que me fez ficar mal por não conseguir amamentar a minha filha.
Hoje, fora do hospital, sei que a amamentação é outra coisa que gostam muito de romantizar na maternidade.
O Felipe ficou comigo o primeiro e segundo dia no hospital e a Vanessa ficou um pouco também.
Foi uma ótima experiência ter a Flora nesse hospital, com exceção do médico obstetra de lá que é um senhor métodos antigos e técnicas em desuso.
No dia de virmos embora, a Flora foi levada para fazer o teste do pezinho e as enfermeiras já trouxeram ela com a saída de maternidade bordô, dada pela minha mãe e a cena dela chegando pra gente daquele jeito, eu nunca vou esquecer: a enfermeira com ela no colo, toda arrumadinha e o segurança trazendo o carrinho para nos acompanhar até o carro.
Pode parecer estranho, mas nesse momento na minha cabeça começou a tocar uma música como se fosse daqueles filmes com finais felizes.



Estávamos Felipe, Cristhiane, Flora, enfermeira, segurança e eu caminhando para a saída, onde minha mãe já estava esperando pra colocarmos a Flora no carro.
Felipe foi na frente com o carro dele, minha mãe, Cris, Flora e eu no carro atrás.
Passamos no mercado para comprar uma lata de NAN para ajudar nesses primeiros dias de amamentação e na farmácia para comprar os remédios necessários para dar continuidade à minha recuperação e da Flora.
Ao chegar em casa, mais um alívio tomou conta de mim. Minha casa limpa, cheirosa e arrumada e a Bery, nossa cachorrinha, toda arrumadinha esperando por nós.
Ela demorou uns 5 dias para entender direito o que estava acontecendo, mas conseguiu se adaptar bem.
Hoje, com 25 dias de Flora, ela é a babá oficial.



Foi um longo processo entender que isso tudo estava acontecendo comigo, com a gente. Parece que já estamos no fim de uma grande jornada, mas ela acaba de começar.
Os medos ainda são muitos, não maiores do que os aprendizados.
Não falo de dar banho, trocar fralda ou coisas práticas como essas, mas falo de entender que a vida pode vir com uma notícia pra você que funciona como uma música e você só precisa entender um pouco o ritmo pra poder dançar.
Entender que não adianta seguir o que os profissionais recomendam porque na sua casa, com o seu bebê e dentro da rotina que ele criou pode não funcionar e você precisa se livrar da culpa de "não ter feito do jeito certo", entender que você passou por um dos momentos mais marcantes da sua vida, seus hormônios te fazem viajar numa montanha russa de sentimentos que podem ir do ápice da alegria ao surto em segundos e você não precisa sentir vergonha disso, reconhecer que tudo isso é um processo que precisa ser regado com muita água, descanso e muito amor.
Como é possível que um ser de 25 dias tenha me ensinado e me transformado tanto em tão pouco tempo?
Só o que eu desejo daqui pra frente é que os meus cuidados sejam de tanto aprendizado pra ela quanto está sendo pra mim.
Prometo que vou tentar pegar o jeito de te refrescar do calor sem te dar soluço, de te colocar pra arrotar sem te despertar tanto, de te ter no meu colo quando você estiver sentindo qualquer dor física ou até mesmo angústias...
Todas ou qualquer coisa dessas pode simplesmente fracassar, mas eu espero que você não ache que foi por falta de tentar, pois eu sempre vou tentar fazer as coisas para que nada te faça mal.
Eu estarei aqui pra você porque eu e seu pai decidimos naquele dia que te receberíamos e nos esforçaríamos ao máximo para que o mundo receba esse brotinho de coisa boa no meio de tanto caos.
Flora, você está sendo mais do que necessária na nossa vida.
Chego a delirar um pouco em pensar que seria um belo presente do vovó Nelson pra trazer harmonia para a nossa casa, nossa família, nossa vida.
Seja bem vinda e conte comigo e com o seu pai para tudo que você precisar.

Com amor, sua mãe.


2 comentários:

  1. Que lindo! Adorei, como sempre gosto dos seus textos. = )

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  2. Muito intenso neh. Adorei seu texto. Ser mae é um revolucionar a si mesmo. <3

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