terça-feira, 14 de maio de 2019

Flora e ser mãe (Florescer mãe)

Gosto de pensar que você era apenas uma sementinha quando descobri que estava dentro de mim. Confesso que a princípio eu levei um susto, tive muito medo e tristeza por achar que a partir do seu nascimento eu perderia a minha liberdade.
Conversando com seu pai, percebemos que não era um bicho de sete cabeças, que isso poderia ser bom para nos trazer aprendizados e realizar o grande sonho dos seus avós.
Apesar da minha ficha demorar a cair, o fato de eu estar grávida de você não me saía da cabeça um minuto sequer.
No primeiro trimestre, nada mudou no meu corpo ou comportamento. A única coisa que eu sentia de forma absurda era cansaço.
Acredito que isso não foi só sua culpa: trabalhar 8 horas por dia no centro de São Paulo, pegando metrô lotado pra ir e voltar me desgastava demasiadamente.
O segundo trimestre foi ótimo! Minha barriga começou a surgir lá pelo sexto mês e eu gostava de usar vestidos ou blusas que faziam você anunciar sua chegada.
A coisa chata desse período foi a azia.
O terceiro trimestre foi o mais chatinho. Apesar de estar bem claro para todos que eu estava grávida, as pessoas perguntavam de quanto tempo eu estava e quando eu dizia, elas entortavam a boca dizendo: com essa barriguinha pequena? Nossa...
Mal sabiam eles que você estava lá, firme e forte, ganhando peso e dançando loucamente na minha barriga mesmo com meus problemas de infecção urinária, problemas no estômago por tomar um antibiótico forte demais (isso pq foi recomendação médica, hein?) e a bendita azia que só aumentava, me deixando dormir sentada de tão forte.
No geral, a gestação foi tranquila. Tanto que no dia em que você nasceu, eu demorei pra assimilar tudo que estava acontecendo.


Não sei a partir de quando exatamente eu virei a sua mãe, mas quando eu te vi pela primeira vez eu já senti esse peso.
Naquele momento, eu não imaginava que o puerpério fosse uma fase tão difícil para uma mulher. É o cansaço misturado com o medo de não dar conta das responsabilidades, é querer que as pessoas mais próximas tenham compreensão e muito mais carinho do que o normal (e, infelizmente, elas nem sempre estão dispostas a dar), é dormir mal e não poder dormir enquanto você dorme porque é importante que eu verifique a sua respiração, sem contar a minha imensa vontade de estar ali te admirando nesse tempo, é ter que ter uma excelente memória para lembrar das consultas no pediatra pra você, obstetra pra mim, suas vacinas, minhas vacinas, seus remédios, meus remédios etc etc e se eu esquecer de alguma coisa, serei condenada por muitos, tenha certeza.
E as dores? E a vaidade? E a volta ao trabalho? E os eventos perdidos? Isso pq eu só posso falar da minha experiência nesse comecinho de vida que você tem.
Ah... E um detalhe importante: mesmo com esse turbilhão de sentimentos, mesmo com as dores físicas, mesmo com o cambalear da adaptação, com a carência e a vontade de gritar e chorar o tempo todo, ainda preciso estar calma para que o seu leite esteja garantido.


E olha que eu tenho a minha "rede de apoio". A sua avó Cida está sendo maravilhosa com a gente. Ela lavou as suas roupinhas, ela vem acalmar seu choro quando não sei mais o que fazer, ela fica com você enquanto eu tiro leite pra você tomar mais tarde, ela fica com você para que eu possa cochilar um pouco... E muito mais.

Seu pai está sendo pai: troca fralda, dá banho, mamadeira, colinho...
E as mulheres que estão sozinhas nessa? É muito injusto...
Na gravidez, eu assisti um milhão de vídeos sobre maternidade, li livros, matérias na internet e me dediquei para saber mais sobre amamentação, adaptação com o bebê, como montar o enxoval, as malas de maternidade, o chá de bebê etc.
Na prática, posso perceber o quanto a maternidade é romantizada!
Os especialistas recomendam o aleitamento materno exclusivo em livre demanda até os seis meses de idade do bebê, no mínimo.
Muito provavelmente boa parte deles foram alimentados pelas suas mães com as fórmulas que eles tanto condenam e até fazem mães se condenarem por ter de oferece-las aos seus filhos.
Uma coisa muito preciosa que aprendi com a nossa rotina é: sou eu que vou entender o que funcionará bem pra você, sem me condenar.
De vez em quando eu fico achando que existem prêmios imaginários de mim pra mim mesma quando eu consigo te colocar no berço sem te acordar, quando você coloca seus dedinhos entre a tampa e a base da mamadeira, como se estivesse me dizendo "isso, mamãe! Estou com fome e você acertou, só não tire o meu leitinho daqui por nada", quando você passa as unhas no rosto e não se machuca porque eu lembrei de colocar as luvinhas em você, do carinho que o silêncio faz nos meus ouvidos quando eu te pego no colo e consigo fazer você parar de chorar, quando eu deito a sua cabecinha no meu ombro pra você arrotar e você dorme em seguida e tantas outras coisas.
Engraçado escrever pra você, sendo assim tão pequenininha, mas sinto que além de ilha filha, ganhei também uma grande amiga e é desse jeito que eu contarei com você e espero que conte comigo também.
Se o acaso pedir que eu seja outra coisa, serei. Hoje eu me sinto forte o suficiente para ser o que você quiser.
Aos poucos estou entendendo que as mudanças na minha vida só não são maiores do que as mudanças na sua e se você me escolheu para te dar esse suporte,  estarei aqui.






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